Reflexões sobre o Tempo, a Vaidade e a Essência.
Mike Pietro
5/23/2026
Houve um tempo em que os fios dos telefones nos mantinham presos ao chão, mas nossas almas flutuavam livres. É curioso, não? Enquanto as tecnologias avançam, parece que regredimos na liberdade mais íntima, aquela de sermos nós mesmos. Hoje, vivemos uma era onde o brilho não é da autenticidade, mas do reflexo dos filtros, das desnecessárias cirurgias que moldam identidades, dos medicamentos tomados sem prescrição que silenciam emoções e adoecem o corpo, e do aplauso que ecoa em redes artificiais. No teatro das aparências, não somos mais protagonistas; somos todos reféns. O entretenimento, que antes nos libertava em histórias e sonhos compartilhados, agora nos reduz a espectadores de vidas editadas, consumindo pessoas como mercadorias. A humanidade se transformou em um mercado onde a moeda é a validação, o aplauso, a aparência. E nesse mercado, o espelho tornou-se um juiz cruel. Não reflete quem somos de verdade, mas quem deveríamos parecer ser apenas para se encaixar e agradar. O problema não é a tecnologia, a medicação ou a cirurgia; o problema é o vazio que tentamos preencher com essas ferramentas.
Quando foi que passamos a temer tanto as nossas próprias cicatrizes? Por que a experiência, que deveria ser a mais bela de todas as marcas, tornou-se algo que escondemos? Na corrida contra o envelhecimento, contra o tempo, esquecemos que ele é um aliado. Cada linha no rosto, cada história no corpo, é um testemunho de que vivemos. Mas, no ritmo frenético do agora, a brevidade do tempo escapa por entre nossos dedos, como areia fina. A psicanálise nos convida a olhar para esse espelho interno, a encarar a sombra que evitamos. Afinal, quem somos quando não estamos sob a luz das curtidas? Quem somos quando a máscara cai? Há um terror silencioso em descobrir que, muitas vezes, não sabemos.
Freud falava da repetição e do retorno do recalcado — e, ainda assim, parece que estamos presos em um eterno esquecimento de nós mesmos, repetindo padrões que nos afastam da essência.
A filosofia, por sua vez, nos lembra da finitude. Somos passageiros, e o tempo é a única moeda real que possuímos. Contudo, gastamos essa riqueza acumulando coisas efêmeras. Onde está o valor de um olhar sincero, de um abraço desarmado, de uma conversa que dura mais que alguns caracteres? Desaparecem, como fumaça, em um mundo que não sabe mais ouvir o silêncio. A ação, porém, é possível. E ela começa com perguntas. O que resta quando apagamos as luzes do palco artificial das redes sociais? O que encontramos no escuro do nosso quarto sem telas? Se nos despojássemos de tudo o que é externo, haveria algo que valesse a pena ser chamado de "eu"? Estamos tão ocupados vendendo uma versão editada de nós mesmos que esquecemos de viver a original.
Talvez o chamado nascido nesse texto seja simples e revolucionário, que tal pararmos, por um instante, de olhar para fora e voltarmos o olhar para dentro? Que tal darmos ao outro, e a nós mesmos, o presente da autenticidade? Não aquela autenticidade romântica e idealizada, mas a verdadeira, cheia de falhas, contradições e humanidade. Se a vida é breve, por que insistimos em vivê-la como se fôssemos eternos? Se o espelho é cruel, será que estamos olhando para ele da forma certa? E, sobretudo, será que ainda conseguimos nos olhar nos olhos, sem medo do que vamos encontrar?
Que essas perguntas sejam uma provocação, mas também um convite. Um convite para resistir à tirania do efêmero e abraçar a beleza do que é real. Não há tempo a perder. O fio que nos conecta à essência está sempre ao alcance, basta escolher segurá-lo. Mas vamos vamos aprofundar um pouco mais. Se o espelho reflete a imagem que desejamos projetar, o que acontece com o “eu” que vive por trás da máscara? Essa pergunta, tão central para o pensamento contemporâneo, encontra na psicanálise um campo fértil de reflexão. Em tempos em que a aparência domina e o filtro digital esconde nossas imperfeições, as teorias de Winnicott, Freud, Lacan e Klein revelam as raízes mais profundas desse dilema humano.
Jacques Lacan aprofunda esse drama ao introduzir o conceito do estádio do espelho. É no momento em que nos reconhecemos no reflexo que começamos a construir a nossa identidade. Mas essa imagem, idealizada e fragmentada, nunca corresponde ao real. O sujeito, segundo Lacan, está sempre em falta, buscando no outro o que acredita lhe faltar (Lacan, 1949). E é nesse desejo de reconhecimento que nos tornamos escravos de imagens, as nossas e as dos outros. No Instagram, no TikTok, nos stories efêmeros, buscamos o impossível — um preenchimento para o vazio estrutural de nossa existência.
Já Melanie Klein nos oferece uma visão ainda mais visceral, a luta constante entre amor e ódio, entre integração e fragmentação. Em sua teoria das posições esquizoparanóide e depressiva, Klein descreve como, desde cedo, enfrentamos a difícil tarefa de integrar os aspectos bons e maus de nós mesmos e dos outros (Klein, 1935). Em um mundo de redes sociais, no entanto, essa integração é constantemente ameaçada. Preferimos a idealização de uma imagem perfeita à aceitação das nossas falhas. Como resultado, permanecemos presos em uma posição infantil, incapazes de lidar com a ambivalência e a fragilidade humanas.
Winnicott, porém, oferece uma saída, o encontro com o ambiente suficientemente bom, onde podemos nos sentir seguros para explorar, errar e, sobretudo, ser (Winnicott, 1953). Esse ambiente pode ser uma relação autêntica, um espaço terapêutico ou até mesmo momentos de solitude criativa. A pergunta que fica é, estamos proporcionando a nós mesmos esses espaços? Ou nos perdemos em um labirinto de validações externas, ignorando o chamado silencioso do verdadeiro self? A psicanálise não oferece respostas prontas, mas nos convida a perguntar. Podemos viver sem a constante aprovação do outro? Estamos dispostos a enfrentar o desconforto de sermos vistos em nossa imperfeição? Como podemos nos reconectar com o Self Verdadeiro em um mundo que parece conspirar contra ele?
Donald Winnicott, em sua abordagem sobre o falso self, nos alerta para os perigos de uma vida sustentada por aparências. Quando o ambiente falha em acolher nossas necessidades emocionais desde cedo, somos forçados a criar máscaras que garantam a aprovação do outro. Essa adaptação, necessária em momentos de desamparo infantil, pode se cristalizar ao longo da vida, nos afastando daquilo que Winnicott chamava de Self Verdadeiro — nosso núcleo genuíno de espontaneidade e autenticidade (Winnicott, 1960). Em um mundo que valoriza mais o "curtir" do que o "sentir", o Falso Self não apenas sobrevive, mas se torna a regra.
Sigmund Freud, o pai da psicanálise, trouxe à tona o conflito entre os desejos inconscientes e as demandas da sociedade. Em sua teoria do princípio do prazer e do princípio da realidade, ele descreve como a civilização exige que suprimamos nossos impulsos mais genuínos em troca de uma convivência harmônica (Freud, 1920). Contudo, na busca por aprovação, nos tornamos sujeitos divididos, alienados de nossos próprios desejos. A máscara social, que deveria nos proteger, pode se transformar em prisão.
Talvez seja hora de voltarmos a valorizar o que Winnicott chamava de experiência criativa, aquela capacidade de encontrar sentido na vida por meio da expressão genuína. O verdadeiro antídoto para o vazio contemporâneo não está no desnecessáriao que pode ser evitado ou nos algoritmos que nos controlam, mas no retorno ao que é humano, imperfeito e único. Afinal, como dizia Lacan,
“o desejo é o desejo do outro” (Lacan, 1958). Mas até quando viveremos desejando ser aquilo que o outro espera? Que possamos, ao menos, nos permitir um instante de verdade diante do espelho, sem filtros, sem máscaras, sem repetições. Porque, no fim das contas, não há caminho fácil capaz de resgatar o que já não reconhecemos em nós mesmos.
Sentiu que esse texto falou com algo dentro de você?
Talvez seja o momento de olhar para si com mais cuidado, profundidade e verdade. A terapia pode ser um espaço seguro para compreender suas emoções, ressignificar padrões e se reconectar com quem você realmente é.
Agende uma sessão e dê o primeiro passo nesse processo.
Referências Bibliográficas:
• Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer
• Klein, M. (1935). A contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos.
• Lacan, J. (1949). O estádio do espelho como formador da função do eu.
• Lacan, J. (1958). O Seminário, Livro 6: O desejo e sua interpretação.
• Winnicott, D. W. (1953). A relação inicial entre mãe e bebê.
• Winnicott, D. W. (1960). O falso e o verdadeiro self.
